10 maio 2014

CORP-O-RTUNIDADES
     Um corpo dança na escola. Uma dança marota, rodopiante. Uma dança que sorri ao se encontrar com outros, com outros em nós, nós-outros. Uma dança que escapa da arquitetura escolarizante. Uma arquitetura que conforma a dança de um modo de relação com a vida, infância. Um modo de relação sem voz, sem língua e com todas as línguas. Um modo babélico de vida. Um modo de vida que nos convida a dançar. Um modo de vida que invade outras vidas vividas em nós.
     Nômade, essa dança passeia por espaços. Atravessa a cidade, a família e usa a escola para sapatear seus passos leves e pesados. A escola é o espaço de atravessamento, espaço intermezzo, entre cultura-cidade, cultura-família. Atravessar significa abrir-se para o acontecimento de cada passo, cada movimento, cada sapatear!
     Nunca sozinha, essa infância registra sua dança. Desenha seus movimentos na impermanência de seus gestos. Rabiscos invadem as linhas pedagógicas... um vai-e-vem indeterminado entre pontas que se costuram, tornando-se meios, novos espaços para se atravessar.
     Uma dança-baile, quando se faz junto... quando nós somos outros. Um baile perfumado de movimentos generosos, de cuidado, de afeto. Essa dança-baile é o que nos acontece todos os dias na escola. Um baile de máscaras, de mascarados, de ciganos e circenses.
     Nesse baile, o currículo é música... sonoridades vibrantes dos corpos. E é justamente nesse baile que podemos pensar um currículo.
    A escola costuma pensar currículo como movimento, mas, quando registra esse movimento, parece uma marcha, um corpo militar, uma corporação de saberes. Saberes marcados pelos discursos especialistas.
     Se currículo é movimento, é dança, e sua música não está na marcação dos passos. Sua música está na dinâmica vibrante das culturas. Nas piruetas e rodopios entre os conceitos. Currículo é relação. Currículo se escreve na medida em que vivemos os espaços criados pela escola. Currículo é expressão. Uma expressão generosa daquilo que queremos compartilhar com os demais.
     Currículo é afeto, são escolhas que querem coexistir com outras escolhas. Escolhas que compõem corpos. Escolhas que nos afetam, nos mobilizam, nos tiram do lugar, nos inquietam, nos fazem criar!
    Pensar currículo na escola. Uma oportunidade da escola de se refazer, se reinventar... de mobilizar questões, pessoas, ações, pensamentos. Oportunidade para ampliar e costurar conceitos. Oportunidade para ir além das palavras objetivantes do currículo especialista.
     Uma corportunidade para redesenharmos nossos movimentos dentro da escola, ampliando gestos, e criando novas topografias corpóreas.
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MARCELO CUNHA BUENO é diretor pedagógico da escola Estilo de Aprender e um eterno apaixonado pelo nosso “poder” de ler e escrever
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